Atualmente, um número significativo de alunos apresenta dificuldades escolares e problemas comportamentais e emocionais. Estima-se que 1 em cada 10 crianças apresentam alguma dificuldade de aprendizagem (American Academy of Child and Adolescent Psychiatry, 2013), sendo que muitas ingressam na escola sem habilidades necessárias para ter sucesso em um ambiente escolar. Em um estudo, 46% dos educadores informaram que pelo menos metade de seus alunos apresenta alguma dificuldade que pode interferir no desempenho acadêmico (Rimm-Kaufman, Pianta & Cox, 2000).  Embora alguns professores identificaram que os alunos apresentavam deficitárias habilidades acadêmicas (conhecer as letras, os números) como principal fonte das dificuldades, outros observaram que as principais causas do despreparo para ingresso escolar eram dificuldade para seguir regras, de organização e para controlar os impulsos. Os alunos com esses problemas muitas vezes são rejeitados pelos seus pares, tornam-se mais frustrados e desmotivados com o ato de aprender, e muitas vezes são expulsos ou desistem de estudar (Cardoso et al., 2016).

Na tentativa de tratar tais dificuldades cognitivas, comportamentais e psicossociais, a neuropsicologia preocupou-se em desenvolver intervenções no âmbito da reabilitação neuropsicológica. Trata-se de intervenções com o objeto de remediar ou minimizar os prejuízos e alterações cognitivas, possibilitando uma melhor qualidade de vida para o indivíduo, dentro de uma perceptiva mais remediativa. Diversos programas de reabilitação neuropsicológica já foram desenvolvidos para diferentes quadros clínicos (por exemplo, pacientes com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, traumatismo cranioencefálico, esclerose múltipla, transtorno especifico de aprendizagem), como também, para diferentes déficits cognitivos (atenção, linguagem, funções executivas, memória).

Apesar da importância e efetividade desses programas, cada vez mais pesquisadores, psicólogos, educadores estão vendo a necessidade de ir além de programas de remediação cognitiva e de investir em intervenções de visam à prevenção e promoção a saúde cognitiva (Cardoso et al., 2016). Quem nunca ouviu essa expressão “prevenir é melhor que remediar”? Etimologicamente, prevenir significa “vir antes, tomar a dianteira”. Tais intervenções, tendo um papel preventivo, tem a finalidade de potencializar e aperfeiçoar os processos cognitivos (atenção, memória, funções executivas, linguagem) em indivíduos em desenvolvimento típico, buscando gerar impactos positivos e prevenir problemas neurocognitivos futuros. Um dos contextos em que esse tipo de intervenção mostra-se bastante apropriado de ser implementado é no ambiente escolar e a maioria dos programas foca principalmente na estimulação das funções executivas (FE). Entende-se por FE são sendo um grupo de habilidades que tem por finalidade o controle e a regulação do comportamento e outros processos cognitivos para atingir objetivos específicos e para responder às demandas de tarefas complexas e vêm sendo cada vez mais consideradas indicadores gerais de saúde, bem-estar e sucesso escolar e profissional (Alloway & Alloway, 2010; Diamond, 2013).

Vale ressaltar que focar em intervenções preventivas não significa que as intervenções remediativas não são importantes ou que não devemos investir em tratamento para indivíduos com algum prejuízo cognitivo, pelo contrário. Porém, diante do cenário em que há muitas crianças com prejuízos cognitivos e dada a relevância das habilidades cognitivas para diversos desfechos da vida, incluindo a aprendizagem escolar, saúde física e mental, começamos a perceber que investir apenas na remediação não é suficiente para melhorar a médio e longo prazo a incidência dos problemas cognitivos e para promover ainda mais essas habilidades na infância e vida adulta.

Atualmente, existem modalidades de intervenção que vai desde treino computadorizado, atividades de lápis e papel, como também, programas que são complementares aos currículos escolares. Um dos programas computadorizados mais conhecido é o treino de memória de trabalho COGMED, disponível inclusive no Brasil. Há evidencias que as crianças saudáveis que passaram pelo treino de memória de trabalho aperfeiçoaram a função treinada se comparado ao grupo que não participou do treinamento (Thorell et al, 2009).  Já entre os programas que são implementados no currículo escolar, destaca-se o Tools of the Mind (Ferramentas da Mente) (Bodrova & Leong, 2007). No cenário nacional, há também programas de intervenção, como o Programa de Intervenção em Autorregulação e Funções Executivas – PIAFEx (Dias & Seabra, 2013) para crianças da educação infantil e primeiro ano do ensino fundamental e o Programa de Estimulação Neuropsicológica da Cognição em Escolares: ênfase nas funções executivas – PENcE (Cardoso & Fonseca, 2016) desenvolvido para crianças do Ensino Fundamental I. O PENcE, por exemplo, é um programa sistematizado (número de sessões, controle do tempo, metodologia na execução das atividades) para estimulação das FE executado pelo professor em seus alunos. Além disso, há também o o CENA – Programa de Capacitação de Educadores sobre Neuropsicologia da Aprendizagem: com ênfase em funções executivas e atenção, que se propõe a capacitar os educadores para que ele possa desenvolver estratégias para estimular as FE em seus alunos. (Pureza & Fonseca, 2016).

Os resultados dos nossos estudos com PENcE e CENA são promissores e bastante animadores uma vez que evidenciaram que as crianças que participaram dos programas apresentaram ganhos em FE e conseguiram transferir para outras habilidades cognitivas, acadêmicas, apresentando também mudança de comportamento, indo ao encontro dos estudos internacionais (Cardoso, 2017; Cardoso et al., no prelo; Pureza,2017; Pureza et al., no prelo).. Para que possam conhecer de forma detalhada toda estrutura dos programas, embasamento teórico e principais resultados que encontrados, bem como, se capacitarem para trabalharem com os programas, desenvolvemos os cursos online para os alunos do Ilumina. Se você quer trabalhar com intervenção precoce preventiva sugerimos dar uma olhada nestes nossos cursos Online de capacitação ;).

A atenção e o interesse atribuídos, ainda que pontuais, as intervenções e programas que visam à prevenção e a estimulação dos processos cognitivos são de extrema relevância. Partindo do pressuposto e embasado nos resultados de pesquisas científicas de que as crianças que participam de tais programas melhoram suas habilidades cognitivas, acadêmicas e comportamentais, acredita-se que o impacto pode não ser só de forma direta, mas também a longo prazo, levando a um melhor rendimento escolar e ajudando a prevenir problemas sociais e de saúde cognitiva futuros.

Referências:

Alloway T. P. & Alloway R. G. (2010) Investigating the predictive roles of working memory and IQ in academic attainment. Journal of Experimental Child Psychology, 106, 20–9.American Academy of Child and Adolescent Psychiatry. (2013). Practice Parameter for Cultural Competence in Child and Adolescent Psychiatric Practice. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry, 52(10), 1101–1115.Bodrova,

E.,& Leong, D. J. (2007).Tools of the mind. OH: Merrill/Prentice Hall.Cardoso, C.O., Dias, N.M., Senger, J., Colling, A.P.C., Seabra, A.G., & Fonseca, R.P.(2016). Neuropsychological stimulation of executive functions in children with typical development: a systematic review. Applied Neuropsychology: Child.

Cardoso, C.O., & Fonseca, R.P. (2016). Programa de Estimulação Neuropsicológica da Cognição em Escolares: ênfase nas Funções Executivas. Ribeirão Preto: BookToy.

Cardoso., C.O. (2017). Programas de intervenção neuropsicológica precoce-preventiva: estimulação das funções executivas em escolares. Tese de doutorado. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

Diamond, A. (2013). Executive functions. Annual Review of Psychology, 64, 135-168.

Dias, N. M., & Seabra, A. G. (2013). Programa de Intervenção sobre a Autorregulação e Funções Executivas – PIAFEX. São Paulo, Brazil: Memnon. Pureza, J.R., & Fonseca, R.P. (2016). Programa de Capacitação de Educadores sobre Neuropsicologia da Aprendizagem: com ênfase em funções executivas e atenção. Ribeirão Preto: BookToy.

Rimm-Kaufman, S. E., Pianta, R., & Cox, M. (2000).Teachers’ judgments of problems in the transition to kindergarten.Early Childhood Research Quarterly, 15,147–166

Thorell, L. B., Lindqvist, S., Bergman Nutley, S., Bohlin, G., & Klingberg, T. (2009). Training and transfer effects of executive functions in preschool children. Developmental Science, 12(1), 106–13.