Me encantei pela Neuropsicologia no primeiro semestre do curso de Psicologia ao ler o livro “O homem que confundiu sua mulher com um chapéu”, de Oliver Sacks. Em 1993, quando eu comecei minha graduação, pouco se falava em Neuropsicologia no Brasil. Não havia disciplinas de graduação sobre o tema e o pouco de oportunidade que eu tinha para estudar neurociências ocorria nas raríssimas matérias “biológicas” que causavam imensa aversão aos meus colegas de turma. Comecei a iniciação científica, sob orientação do médico Prof. Dr. Ramon Cosenza ainda no primeiro período do curso e, em seguida, iniciei uma segunda iniciação científica sob orientação de outro médico, Prof. Dr. Vitor Haase. Ter sido orientado por professores de outra formação me fez considerar a interdisciplinaridade na neuropsicologia algo natural e necessário. Sob orientação desses dois professores eu fiz praticamente uma graduação paralela. Ter grandes professores é fundamental para sua carreira, e eu tive os melhores. Mas muitas outras coisas indispensáveis à boa prática da neuropsicologia você aprende ao longo dos anos de prática. Então resolvi escrever algumas (das várias) coisas que venho aprendendo ao longo dos meus 27 anos de estrada na Neuropsicologia!

A Neuropsicologia é uma disciplina científica e, como tal está em constante mudança em termos de seus modelos teóricos, hipóteses e métodos. Escolher a Neuropsicologia como área de atuação é assumir um compromisso com atualização constante e com a capacidade criticar, reafirmar e/ou redefinir conceitos, técnicas e práticas. Esse compromisso que o neuropsicólogo assume inclui alguns pontos importantes tais como:

1) Fundamentalismo não combina com a Neuropsicologia.

Você não encontrará (tomara que não encontre) neuropsicólogos Milnerianos, Lezakianos, Damasianos, Becharianos, Posnerianos, Diamondianos, Bentonianos ou coisas do gênero. A Neuropsicologia é uma ciência e como tal, se ergue a partir dos trabalhos de milhares de cientistas que, ao longo do tempo, contribuíram e contribuem para sua fundamentação. Não há detentores de regras fatais ou verdades absolutas por aqui. Relaxe pois estamos todos aprendendo e longe de conhecer a totalidade do nosso objeto de estudo (relação entre cérebro, comportamento e cognição). Por isso, permita-se aprender com os acertos, erros, mudanças de posições e principalmente com o constante debate científico na área. Esta é uma das bases da minha coluna (a Hot Topics) no nosso curso de Raciocínio Clínico em Neuropsicologia. Lá eu tento exatamente trazer estas novas perspectivas e como o conhecimento em neuropsicologia é dinâmico e precisa ser constantemente revisitado, repensado, reafirmado ou modificado.

2) Fins, são fins e meios são meios.

Uma máxima que aprendi com meus colegas médicos é de que a clínica é soberana. Ainda assim, exames complementares podem ajudar a responder nossas dúvidas em casos nebulosos e/ou que precisam de uma melhor documentação. O Exame neuropsicológico é um exame complementar, e como tal, serve para responder perguntas. Como diz o Paulo Mattos, é um exame clínico armado aonde podemos contar com testes, escalas, inventários além da observação e de entrevistas rigorosamente detalhadas. Os meios vão mudando na medida em que avança nossa compreensão sobre o objetivo final da neuropsicologia (caracterizar a relação cérebro, comportamento e cognição). Assim, não se apaixone por meios e os questione sempre sua aplicabilidade e utilidade. Os testes, escalas e inventários precisam evoluir. Precisamos aprimorar e (sim!!!) substituir e até mesmo abandonar métodos que não se mostrem precisos (ou tão precisos quanto os que surgirem).

Esta tirinha do “Crônicas de anestesia” ilustra perfeitamente meu argumento!

Esta tirinha do “Crônicas de anestesia” ilustra perfeitamente meu argumento!

3) A cognição do neuropsicólogo importa

Não é por que você avalia e faz intervenções na cognição dos outros que a sua é excelente, ok? Cuidado com os seus erros cognitivos durante sua atuação. Dos vícios de interpretação, aos erros na aplicação, correção e interpretação de instrumentos, você sempre deve considerar a possibilidade de não estar correto. Você conhece os vieses de ancoragem, disponibilidade, confirmação, enquadramento, atribuição e a falácia do jogador? São alguns dos erros típicos que acompanham clínicos de diferentes especialidades, inclusive nós, neuropsicólogos. Você avalia o tempo de reação de outra pessoa usando um cronômetro? Cuidado, o seu tempo de reação pode mascarar resultados importantes. Você avalia dezenas de pessoas consecutivas? Já parou para pensar nos efeitos da sobrecarga cognitiva sobre suas funções executivas e atencionais? Sim, a sua cognição é decisiva na avaliação da cognição de outra pessoa.

4) A insatisfação é parte do processo

Embora a neuropsicologia em si, seja um dos maiores motivos de satisfação em minha vida, ela me dá muitos momentos de insatisfação. Os laudos, por exemplo, são quase uma unanimidade no ranking de insatisfações dos neuropsicólogos clínicos. Eu já perdi a conta de quantas vezes mudei os meus laudos e, certamente, vou mudar muito até a ultima avaliação que eu fizer na vida (aos 104 anos). A nossa ciência muda, os achados mudam nossa concepção sobre doenças, perfis, prognósticos e tratamentos. As evidências se acumulam, práticas são substituídas, novas aplicações surgem, outras caem por terra. E seu laudo irá acompanhar isso tudo. As vezes é uma crueldade olhar para um laudo antigo e pensar: nossa, fui eu quem fiz isso!? Não é possível que eu pensava assim! Ressignifique e conclua: nossa, como fui capaz de acompanhar os avanços da neuropsicologia e adaptar meu laudo a isso tudo. Ainda assim, não se engane: seu laudo de hoje é infinitamente pior que o de amanhã. A minha grande amiga, Rochele Paz Fonseca, fala bastante disso. Laudos são a especialidade dela!!

5) Você nunca saberá o suficiente

Se a Neuropsicologia tivesse um pai, um único autor desses que você tem que estudar durante anos, sua obra, sua vida, seus motivos, talvez fosse fácil. A Neuropsicologia é um empreendimento científico e se você escolher esta área, estará sentenciado a nunca estar pronto! Terá que ter uma imensa flexibilidade cognitiva e ler avidamente, frequentar congressos, interagir com colegas, mudar suas formas de pensar sobre o cérebro, patologias, desenvolvimento no ciclo vital, modelos teóricos, instrumentos e tudo que cerca nossa prática. Mas um efeito colateral dessa sentença é que você terá novidades e estimulação cognitiva para o resto da sua vida profissional.

Esses são 5 pontos que me ajudam a adequar constantemente a minha prática na Neuropsicologia aos progressos na área. Lembre-se sempre: a formação em qualquer área científica é necessariamente uma formação continuada!